Jovem teve seu kit retido na Abertura do Pan-RJ

 

Ele é um adolescente, atleta, tem diabetes tipo 1 e foi assistir à abertura dos jogos Pan-Americanos, no Rio de Janeiro. Com seu kit de insulina e seringa, teve seu material retido na entrada. O jovem, de 18 anos, que prefere não se identificar, argumentou que precisava daquilo, pois “não tinha culpa de ser diabético”. Os seguranças disseram que estavam cumprindo ordens e que o rapaz só poderia resgatar os produtos no fim do evento. A pergunta é: como fica a saúde do indivíduo nessas ocasiões?

A Médica fala:

Segundo a endocrinologista Solange Travassos, médica do jovem, o rapaz utiliza a insulina de ação ultra-rápida, antes do café da manhã, do almoço, do lanche e do jantar, ou seja, mais ou menos a cada três horas. E, como ele chegou ao Maracanã às 14h e iria ficar mais cerca de oito horas dentro do estádio, até o término do evento, precisaria do kit em suas mãos.

“A comparação é a seguinte: alguém sai sem o seu pâncreas? O pâncreas dele é o glicosímetro e a administração da insulina”, comenta a Dra. Solange. “É preciso buscar uma solução para essa discriminação com quem tem diabetes. Só no Brasil, são mais de 1 milhão de pessoas com o tipo 1 dessa disfunção”, acrescenta.

Além do constrangimento que a pessoa com diabetes se submete em ocasiões como essa, outro aspecto importante é a abordagem dos responsáveis pela segurança. Freqüentemente, os não informados fazem logo uma associação da seringa ao uso de drogas.

De acordo com a Dra. Solange, por causa dessas situações muitos jovens com diabetes estão se prejudicando. “O que eu tenho visto é adolescentes indo para as baladas (boates) sem levar nada e voltando com 300 de glicemia. Isso é muito ruim para a saúde deles”, adverte.

“Eu queria saber qual o risco que uma agulha de 5 milímetros pode oferecer? E se acontece alguma coisa lá dentro? E se ele não consegue voltar ao local onde deixou seu kit?”, indaga a doutora.


Falta de Informação

Na verdade, o que se verifica é que, nos jogos pan-americanos, o Brasil está com segurança de primeiro mundo e informação de segundo. No site da American Diabetes Association (ADA) há uma referência a um processo judicial, promovido contra uma empresa de entretenimento (SFX Entertainment).

A SFX havia proibido a entrada de lancetas e seringas de insulina em seus eventos. Mas uma resolução permitiu que pessoas com diabetes possam levar seu material de tratamento e alimento para as atividades promovidas pela SFX.

A Sorte

Segundo a mãe do adolescente, que também prefere não se identificar, ele utiliza normalmente uma caneta de administração de insulina. Mas, como a leva dentro do bolso, certa vez a agulha quebrou e ocasionou um sério problema.

Mãe preocupada, ela colocou a seringa e a insulina na mochila do rapaz, que já estava com a caneta no bolso. “Essa foi a salvação! A sorte foi que eles não viram a caneta e meu filho pôde manter seu tratamento durante a abertura dos jogos”, afirma.

Opinião

Na opinião da jornalista Paula Camila Rodrigues, que integra a reportagem da SBD e tem diabetes tipo 1, dá até para entender o lado dos seguranças, já que a seringa é freqüentemente associada ao uso de drogas. No entanto, ela acredita que deveria haver um treinamento para que soubessem o que deve ser barrado ou não.

“A seringa subcutânea, usada para injetar insulina, não serve para aplicações na veia. Além disso, acho que deveria existir um instrumento oficial de identificação de diabéticos, como uma carteira de identidade, para evitar constrangimentos nos casos em que houvesse necessidade de levar o material de controle para aeroportos, casas noturnas e eventos em geral”, diz.

O Co-Rio Lamenta

Segundo a assessoria de imprensa do Comitê Rio (Co-Rio) dos Jogos Pan-Americanos, a organização do evento lamenta o incidente e informa que o paciente que tem diabetes pode entrar nos jogos com o kit de insulina, desde que apresente um atestado médico ou algo que o identifique como portador da doença – o que foi feito, mas não adiantou.

O Guia do Espectador, que se encontra no site oficial do Co-Rio (
<www.rio2007.org.br>) deixa claro que “remédios e produtos usados sob recomendação e/ou prescrição médica estarão liberados”

fonte: redação SBD